Stress: a "epidemia" dos nossos dias


Hoje em dia, a maioria de nós vive a correr. Corremos de manhã para despachar os miúdos para os levar à escola; corremos para o trânsito, praguejando durante aquela hora desperdiçada em que poderíamos estar já a adiantar aquele monte de folhas empilhadas na secretária; corremos durante o dia de trabalho, entre reuniões e papelada, muitas vezes passando o dia a comer produtos processados, porque “é o que está à mão”; corremos depois para casa, para ir buscar os miúdos à escola, ajudá-los nos trabalhos, arrumar a casa, tratar da roupa; se der tempo ainda vamos ao ginásio, com aquela música altíssima e luzes e emoção tal que quando termina estamos exaustos, mas o que interessa é ter ido! Fazer o jantar, deitar os miúdos e finalmente sentar no sofá a ver televisão ou ainda adiantar trabalho que ficou pendente, deitar à meia-noite ou 1h ou 2h, dormir 5 horas… para depois começar tudo de novo no dia seguinte.

Claro que em determinada fase da nossa vida parece que conseguimos aguentar este ritmo para sempre, mas a dada altura, deixamos de conseguir lidar com este stress da mesma maneira.

O stress é a resposta do nosso organismo a uma situação que gera alterações na homeostasia, isto é, no equilíbrio entre o nosso corpo e o meio externo que o envolve. Perante um estímulo de stress, o organismo ativa duas vias metabólicas de resposta: o sistema nervoso simpático, aumentando a produção de catecolaminas, como a adrenalina e noradrenalina, e o eixo Hipotálamo-Pituitária-Adrenal (HPA), aumentando a produção de glucocorticoides, como o cortisol. Os objetivos da ativação destas duas vias são mobilizar energia, por forma a permitir uma resposta do tipo “Fight or Flight”, e promover a adaptação do organismo para um novo evento de stress.

Sintomas como fadiga e quebra de energia ao longo de todo o dia, insónia e dificuldade em adormecer, retenção de líquidos, aumento do apetite, diminuição da líbido, hipotiroidismo e acumulação de gordura na zona abdominal, derivam das alterações metabólicas que ocorrem aquando de uma situação de stress crónico, por intermédio das consequências do aumento ou queda abrupta do cortisol sérico, nomeadamente a resistência à insulina, glucogenólise, neoglicogénese, catabolismo, atividade imunossupressora e lipogénese. A capacidade de resiliência do indivíduo personaliza a resposta do seu organismo ao stress.

Adicionalmente, sabe-se que existe uma comunicação já bem relatada entre o intestino e o cérebro, a qual identifica uma ligação entre a microbiota intestinal e os sistemas neuroendócrino, neuroimunológico e sistema nervoso central. De facto, a ativação do Eixo HPA e aumento de cortisol promove uma alteração na composição da microbiota e um aumento da permeabilidade intestinal, levando à entrada de Lipopolissacáridos (LPS), gerando endotoxemia, disbiose e inflamação intestinal.

Para contornarmos os efeitos do desequilíbrio à homeostase que ocorre no organismo, é essencial:

1) Encontrar o gatilho que desencadeou o stress;

2) Restaurar a microbiota intestinal;

3) Reduzir a inflamação, evitando alimentos com potencial inflamatório e aumentando a ingestão de compostos nutricionais potencialmente anti-inflamatórios;

4) Restaurar o desequilíbrio hormonal, no que diz respeito principalmente às hormonas sexuais, tiroideias e insulina;

5) Melhorar o estilo de vida, isto é, realizar exercício físico de forma adequada e regularizar os hábitos de sono.

O aumento de cortisol, adrenalina e noradrenalinda, que por sua vez desencadeiam todos os processos inflamatórios e de alteração da microbiota intestinal referidos, são resultado de um mecanismo de sobrevivência. A acumulação de gordura derivada do aumento da lipogénese mediada pelo cortisol, por exemplo, tem como objetivo acumular energia para novo episódio de stress - gerar adaptação. Contudo, o stress que experienciamos atualmente é principalmente emocional; na época dos nossos antepassados, o stress seria maioritariamente físico, por exemplo perante o aparecimento de um animal selvagem. Assim, a resposta do cortisol parece desajustada para a nossa realidade… ou seremos nós actualmente os desajustados à nossa natureza?

No próximo dia 28 de Março estarei no Porto, no Congresso da APNEP (Associação Portuguesa da Nutrição Entérica e Parentérica), a falar sobre o papel da Nutrição na modulação da resposta ao Stress.

#stress #cortisol #eixoHPA #HiperpermeabilidadeIntestinal #nutrição

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